Sintomas como distensão abdominal intensa, gases, diarreia, constipação, dor e cansaço são comuns em nosso consultório. Os termos Doença Inflamatória Intestinal, SIBO, IMO costumam surgir na investigação, mas eles não representam o mesmo diagnóstico e nunca devem ser tratados como doenças semelhantes.
A dificuldade é que essas condições podem compartilhar sintomas, coexistir em algumas pessoas, mas cada uma delas tem abordagens diferentes. Fazer o diagnóstico correto de cada quadro é o que permite sair de experimentos genéricos e construir uma estratégia terapêutica consistente com a história clínica, a microbiota, o padrão intestinal e a resposta do organismo.
Doença Inflamatória Intestinal, SIBO e IMO: qual é a diferença?
A Doença Inflamatória Intestinal, também chamada de DII, inclui principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. São doenças crônicas imunomediadas, nas quais há inflamação no trato digestivo. Podem causar diarreia persistente, urgência para evacuar, sangue ou muco nas fezes, dor abdominal, perda de peso, anemia e fadiga. Em alguns casos, também há manifestações fora do intestino, como alterações articulares, cutâneas ou oculares.
SIBO é uma sigla em inglês – Small Intestinal Bacterial Overgrowth – supercrescimento bacteriano no intestino delgado. Em vez de uma inflamação intestinal típica da DII, há alteração na quantidade e na distribuição de bactérias em uma região onde elas deveriam estar em menor concentração. Esse excesso de bactérias leva a fermentação causando estufamento após as refeições, gases, desconforto, alteração do hábito intestinal e, em condições específicas, prejuízo na absorção de nutrientes.
IMO também é uma sigla em inglês – Intestinal Methanogen Overgrowth – significa supercrescimento de microrganismos produtores de metano no intestino. Apesar de ser frequentemente associado ao SIBO, não se limita às bactérias nem necessariamente ao intestino delgado. O metano está mais relacionado à lentificação do trânsito intestinal e à constipação, embora os sintomas variem de pessoa para pessoa.
Por que os sintomas podem se confundir?
Distensão, dor e irregularidade intestinal não definem isoladamente essas condições. Uma pessoa com DII em atividade pode apresentar sintomas semelhantes aos de um supercrescimento microbiano. Por outro lado, alguém com SIBO ou IMO pode ter desconforto importante, mas sem a característica intensa da doença de Crohn ou da retocolite ulcerativa.
Também é possível que um paciente com DII tenha SIBO associado. Cirurgias prévias, alterações anatômicas, inflamação, estreitamentos intestinais, mudanças na motilidade e alguns medicamentos podem favorecer esse cenário. Porém, essa associação não deve ser presumida apenas pela presença de gases ou pelo desconforto abdominal.
O mesmo cuidado vale para a ideia de que todo inchaço abdominal seria sinal de SIBO. Intolerâncias alimentares, síndrome do intestino irritável, doença celíaca, constipação, alterações do assoalho pélvico, efeitos de medicamentos e questões metabólicas podem produzir sintomas semelhantes. A investigação precisa evita restrições alimentares desnecessárias e tratamentos que não atacam a causa predominante.
Como é feita uma avaliação clínica consistente
O ponto de partida é uma escuta detalhada. A evolução dos sintomas, a relação com refeições, o padrão das fezes, o uso de medicamentos, cirurgias, infecções prévias, perda de peso, histórico familiar e sinais de alerta oferecem informações que nenhum exame isolado substitui.
Na suspeita de DII, exames de sangue, fezes e avaliação endoscópica podem ser necessários para identificar inflamação, extensão e gravidade da doença. A calprotectina fecal, por exemplo, pode contribuir para diferenciar inflamação intestinal de quadros funcionais, mas precisa ser interpretada dentro do contexto clínico.
Para SIBO e IMO, pode ser considerado o teste dos gases expirados em situações selecionadas. Seus resultados exigem leitura criteriosa e preparo inadequado, trânsito intestinal acelerado ou lento podem interferir na interpretação. Um resultado não deve ser analisado de forma desconectada dos sintomas e de outros fatores de risco.
Tratar o exame ou tratar a pessoa?
O objetivo não é normalizar um número em um laudo, mas melhorar a função intestinal, controlar a inflamação quando ela existe e reduzir o risco de recorrências. Em DII, o tratamento pode envolver medicamentos específicos para modular a atividade da doença, além de acompanhamento regular e prevenção de deficiências nutricionais.
Em SIBO ou IMO, a conduta depende da apresentação clínica, do fator que favoreceu o supercrescimento e do padrão de trânsito intestinal. Em algumas pessoas, tratar a constipação, rever medicamentos, corrigir deficiências ou investigar alterações de motilidade é tão relevante quanto a abordagem direcionada aos microrganismos. A alimentação pode ser ajustada temporariamente, mas dietas excessivamente restritivas tendem a ser difíceis de sustentar e nem sempre são necessárias.
Quando os sintomas digestivos persistem, a investigação deve respeitar a complexidade do caso. Uma avaliação individualizada permite distinguir doença inflamatória intestinal de desequilíbrios da microbiota ou alterações funcionais, com decisões reforçadas na ciência e na experiência real de cada paciente.
Dra. Karla Maggi – Gastroenterologista CRM SP 109.160 Registro de Especialista 53.067